Publicado por: Érico Pagotto | abril 30, 2013

2 3= 2,5

Thaís Herrero, da Página 22

“Gerir e restaurar 60 mil hectares de Mata Atlântica da América do Sul e criar mais de mil postos de trabalho até 2020.” Embora pareça uma típica missão de organização não governamental, ela está no coração dos negócios de uma empresa de erva-mate orgânica. Quando, em 1996, dois amigos de universidade, o argentino Alex Pryor e o americano David Karr, idealizaram o negócio, queriam dividir com mais pessoas o prazer de tomar chimarrão e tereré (versões quente e fria da bebida com o mate). Não desejavam, no entanto, abrir um negócio comum. Ambicionavam uma empresa com uma estratégia de uso sustentável dos recursos naturais e que fosse operada sob a filosofia do comércio justo.

A ideia ganhou forma há 16 anos na Guayakí, hoje uma das principais referências do conceito de negócio social. A empresa vende erva-mate cultivada por comunidades rurais da Argentina, Paraguai e Brasil a consumidores dos Estados Unidos e do Canadá – e, em 2014, pretende aportar no mercado brasileiro.

Além de gerar emprego e renda, a empresa oferece projetos de capacitação para que as comunidades cultivem novas áreas de floresta nativa. A erva-mate precisa da sombra de árvores mais altas para se desenvolver e, por isso, é necessário ter no mesmo terreno outras espécies nativas. Nos projetos da Guayakí, plantam-se principalmente espécies frutíferas, como jabuticaba e pitanga. “Nosso modelo permite restaurar mais hectares de Mata Atlântica, na medida em que cresce a demanda pelo mate. É o contrário do modelo da soja, por exemplo, no qual o aumento de consumo gera um resultado negativo sobre os recursos naturais”, diz Pryor, em entrevista a Página22, por e-mail.

O mate que produzem é orgânico, certificado pela California Certified Organic Farmers(CCOF), creditado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. E o comércio justo, pela Fair for Life.

NOVOS FORMATOS

A Guayakí integra um grupo de empresas que tem como propósito lucrar apoiando-se na lógica da competitividade e eficiência do mercado ao mesmo tempo em que gera impacto positivo, contribuindo para a solução problemas ambientais e sociais. São os chamados negócios ou empreendimentos sociais. Por unir características do Segundo e do Terceiro Setor (mais em glossário), é também chamado de “Setor 2,5”.

Essas empresas não têm características homogêneas, porque se propõem a gerar o impacto social de diferentes formas. Como afirma Célia Cruz, diretora-executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), o Setor 2,5 tem 50 tons de cinza. “Há ONGs que abrem um negócio para gerar renda, há empresas que vendem serviços ou produtos destinados à população de baixa renda e que, por isso, têm preços acessíveis e há empresas que se parecem mais com as tradicionais: geram lucro e destinam parte (ou tudo) para uma causa social”, explica.

“Estão nesse rol os empreendedores que
 querem fazer algo de bom pela sociedade, mas 
por meio dos negócios e não de uma ONG”, 
explica Henrique Bussacos, sócio-fundador do HUB São Paulo e diretor do HUB Global [1]. Para ele, é difícil traçar uma linha e definir com clareza onde começa e onde termina o Setor 2,5.

[1] O HUB é uma comunidade global
de empreendedores, prestadores de serviços, organizações e empresas voltadas para o impacto positivo. É uma rede
de contatos, mas há também sedes fixas
 que funcionam como escritórios de trabalho cooperativo (conhecido pelo jargão em inglês co-working)

“Os Estados, a sociedade civil e a filantropia, sozinhos, não dão conta de resolver a magnitude dos problemas sociais e ambientais que compartilhamos em nível global e local”, diz Pedro Tarak, advogado argentino e conselheiro da Guayakí. Em um mundo com 4 bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 3 por dia, faz sentido que esse setor encontre espaço para crescer. Nos países emergentes, por exemplo, essas empresas são caracterizadas pelo alto poder de ganho de escala e centram-se principalmente em saúde e educação.

Foi justamente em um país emergente, Bangladesh, que surgiu uma das mais famosas instituições do Setor 2,5: o Grameen Bank [2]. Já no Brasil, um serviço para a população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS) é o Saútil, uma espécie de “Google da saúde”. No site de busca sautil.com.br é possível encontrar informações de como e onde acessar remédios, produtos e serviços médicos. A base de dados são os diversos portais governamentais.

[2] Banco que concede microcrédito à população de baixa renda. Por conta disso, seu fundador, o economista bengali Muhammad Yunus, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2006

ALTERNATIVA DE GESTÃO

Esse setor também emerge como uma forma de suprir necessidades e resolver os problemas dos dois setores que o cercam. De um lado, há o maior engajamento do lado empresarial, como mostra o caso dos amigos que fundaram a Guayakí. Do outro, estão organizações do Terceiro Setor com dificuldade de acessar verba dos governos.

Para Renato Kiyama, diretor da Artemisia, muitas ONGs encaram esse tipo de empreendedorismo como alternativa de gestão. “As arrecadações de verba do governo são feitas sob um excesso de burocracia. As ONGs precisam perder muito tempo e trabalho só para prestar contas de como usam os recursos. Por exemplo, nem sempre podem pagar pessoas que prestam serviços, porque toda a verba deve ir só para um projeto específico”, explica. Como decorrência, as organizações estão abrindo braços de negócios sociais para que possam ter mais liberdade de acessar e manejar o dinheiro que entra. (leia mais sobre as organizações do terceiro setor em “Em busca de uma receita própria”)

O Comitê pela Democratização da Informática (CDI) é um exemplo. Nasceu como organização não governamental com a missão de promover o acesso a tecnologias de informação em comunidades de baixa renda e da periferia do Brasil. Em 2009, criou uma unidade de negócios: a CDI Lan, que já afiliou 6,5 mil LAN houses e capacitou seus donos e funcionários para que os locais se transformassem em centros de prestação de serviços. Alguns estabelecimentos, por exemplo, tornaram-se correspondentes bancários do Banco do Brasil que fazem transações, pagamentos, consultas no Serasa e até abertura de conta corrente. A população acessa essas facilidades e os donos das LAN houses ganham mais clientes, além de ser remunerados pelos diversos tipos de serviço.

CENÁRIO NACIONAL


No Brasil, as primeiras empresas sociais foram criadas entre os anos de 2006 e 2007. Estiveram entre as pioneiras o HUB São Paulo e a Tekoha, também cofundada por Bussacos. Em seu primeiro modelo de negócio, a Tekoha era uma loja virtual de artesanato e objetos produzidos por comunidades espalhadas pelo Brasil e que dificilmente chegariam ao mercado consumidor das grandes cidades sem um mediador. A cada venda, metade do valor era dos produtores, 25% cobriam custos e despesas, e o restante ficava como lucro da empresa.

No segundo semestre de 2012, a Tekoha transformou-se em uma consultoria para instituições, como secretarias e governos, interessadas em capacitar comunidades com produções locais. A empresa se deu conta de que a maioria das famílias já estava amadurecida a ponto de seguir seus negócios sem intermediários. “Preparamos as comunidades para que caminhassem sozinhas. A mudança no nosso modelo só aconteceu porque somos um negócio social. Se não fôssemos, continuaríamos intermediando as vendas, porque davam lucro”, diz Bussacos.

Enquanto a Tekoha era criada, as informações sobre o Setor 2,5 começavam a chegar ao Brasil. Crucial nesse momento foi a Artemisia, primeira aceleradora de negócios sociais do País. Duas vezes por ano, cerca de dez empresas em início de operação são selecionadas para passar seis meses sob os cuidados de um time especializado que estuda e redesenha o modelo de negócio, capacita os envolvidos e até ajuda a selecionar novos profissionais recém-formados nas melhores universidades para ser contratados.

Segundo Renato Kiyama, a maior mudança até hoje foi no perfil dos empreendedores apoiados pela Artemisia. Nos primeiros anos, a maioria eram jovens em início de carreira. Desde 2010, no entanto, 80% deles já trabalharam em grandes corporações, mostrando um amadurecimento do setor. Até 2012, 45 empresas haviam passado pelo processo e, neste semestre, outras dez estão sendo aceleradas. De todas, apenas cinco faliram. “As outras, mesmo que não sejam grandes corporações, estão se pagando e crescendo”, pondera Kiyama. Contribui para isso o fato de que a maioria já sai de lá com um impulso financeiro, uma vez que fundos de investimento voltados para os negócios de impacto social ficam de olho nesses novos empreendimentos. Sete negócios que passaram pela Artemisia receberam de início mais de R$ 1 milhão de investidores.

Os chamados fundos de investimento de impacto social crescem acompanhando o Setor 2,5. O ano de 2012 começou com apenas três empresas desse modelo no mercado nacional: a Vox Capital, a First e a Pragma. Atualmente, já existem dez. “Isso mostra uma nova mentalidade. Faz sentido que pessoas queiram investir em um negócio de impacto social, mas que também esperem retorno financeiro”, diz Célia Cruz.

FORAS DA LEI

Aceleradoras e investidoras cumprem papel fundamental para o surgimento e o desenvolvimento das empresas sociais que ainda não contam com ajuda do governo ou regulamentação, como acontece em alguns países, na opinião de Kiyama. Na maior parte dos casos, tais empresas enquadram-se como pequenas e médias, visto que, como ONGs que comercializam algum produto, teriam de pagar impostos mais altos.

O Brasil encontra-se ao lado dos outros emergentes, no grupo dos países sem regulamentação para o Setor 2,5. Já na Europa, definem-se como social enterprise os negócios que comercializam produtos ou serviços, mas destinam todo o lucro para a causa social ou ambiental – ou seja, não dividem nada entre acionistas. Entre outras obrigações para obter isenções fiscais, esses negócios precisam ter uma cota estabelecida de mão de obra voluntária e representantes dos grupos beneficiados no conselho.

O então Ministério da Indústria e do Comércio do Reino Unido estabeleceu em 2004 o conceito de negócios sociais e sua forma legal, chamada Community Interest Company (CIC). Essas empresas são um tipo de sociedade limitada cujo objetivo é operar em benefício da comunidade (provendo serviços, inclusão social, preservação ambiental etc.) e não dos seus proprietários. Por isso, destina todo o lucro para a própria causa, e também sem dividi-lo entre acionistas. Foram regulamentadas para que se diferenciassem das instituições de caridade que têm mais vantagens fiscais, porém estão sujeitas a uma regulamentação mais custosa do que as CICs.

Renato Kiyama, da Artemisia, é pessimista quanto ao surgimento de uma legislação brasileira no futuro próximo. “É difícil regular um setor que no Brasil é muito jovem. Com o tempo, esses negócios vão se definir e consolidar suas características. Teremos mais casos e histórias – boas e ruins. Aí, sim, será hora de ter legislação própria”, afirma. Forçar direitos e deveres agora, para ele, poderia até mesmo limitar a capacidade de inovação e o desenvolvimento do setor em seu maior potencial.

EMPRESA LADO B

Enquanto nem todos os países regulam o Setor 2,5, a organização americana sem fins lucrativos B Lab criou uma certificação para as companhias que usam o seu poder de mercado para criar benefícios sociais e ambientais. As chamadas empresas benfeitoras, ou empresas B, do inglês benefit corporations (B corps), que dá nome ao selo. [3] A Guayakí é uma das empresas certificadas.

A adesão ao certificado é voluntária, porém paga – cerca de US$ 500 anuais para pequenas empresas e US$ 25 mil para grandes. Para obtê-lo, é necessário fazer uma avaliação que meça os impactos que o negócio pode gerar no meio ambiente e na sociedade – como os relacionados à mão de obra – e passar por uma consultoria que indique como minimizá-los. Atravessadas essas duas etapas, o empresário assina um termo de compromisso [4] pelo qual assume os deveres de uma empresa B. Uma vez assinado, o documento passa a ter força legal e os responsáveis podem ser processados pelo seu não cumprimento.

[3] As B Corps foram assunto na seção Economia Verde da edição 64 de PÁGINA22 e no blog De Lá Pra Cá
[4] A chamada “Declaração de Interdependência” diz: “Consideramos que essas verdades são evidentes: (…) Que todo negócio deve se conduzir como se as pessoas e o meio ambiente importassem. Que por meio de seus produtos, práticas e lucros os negócios devem aspirar não causar danos e beneficiar a todos”

O crescimento do número de empresas que aderem ao selo mostra o potencial do setor. Em novembro de 2011, havia 300 B corps nos Estados Unidos, 2 no Canadá e 1 no México. Hoje, são 715, espalhadas por 24 países. A América do Sul conta com 42, das quais 3 no Brasil [5]. E o número só vai crescer. Desde o ano passado, opera no
 Chile o primeiro braço da B Lab na América 
Latina, denominado Sistema B. Pedro Tarak,
que também é um dos coordenadores da iniciativa, conta que o Sistema B e a CDI já estão estudando a entrada da organização no País.

[5] Ouro Verde Amazônia, CDI Ventures (da CDI Lan) e Abramar

Tarak credita o crescimento dos negócios
sociais ao atual momento histórico e econômico, que, segundo ele, pede “a gritos” novas 
formas de nos organizarmos economicamente
 e inclui, cada vez mais, a busca pela melhora
 das condições sociais e do meio ambiente nos negócios.

“Assim como a Revolução Industrial levou ao surgimento de formas de proteger a empresa capitalista – como a Sociedade Anônima (S/A) e a Limitada (Ltda.) –, e assim como a preocupação com a exploração dos trabalhadores impulsionou a formação de cooperativas, nesta era da sustentabilidade precisamos de novas opções empresariais. Opções que combinem a busca pelo lucro com a geração de bens públicos para todos”, diz.

Henrique Bussacos concorda com o raciocínio de Tarak. “A lógica de mercado vigente exagera ao estabelecer que a empresa deve apenas gerar valor para seus acionistas.” Mas Bussacos não considera o Setor 2,5 a única solução para os problemas do mundo. “Sempre haverá espaço para o Segundo e o Terceiro Setor tradicionais. O melhor do Setor 2,5 é influenciar ambos.”

Publicado por: Érico Pagotto | abril 27, 2013

O custo de usar o planeta

Custos ambientais da pucuária são 22 vezes maiores do que a renda do setor.

O custo de usar o planeta.

Publicado por: Érico Pagotto | abril 25, 2013

Concentração de CO2 na atmosfera pode ultrapassar 400ppm em maio

“Essa marca deveria ser um alerta para que todos passem a apoiar tecnologias de energia limpa e a redução das emissões de gases do efeito estufa antes que seja muito tarde para nossos filhos e netos”, afirmou Tim Lueker, oceanógrafo do Scripps.

via Concentração de CO2 na atmosfera pode ultrapassar 400ppm em maio.

Publicado por: Érico Pagotto | abril 17, 2013

Mercado Ético Blog Archive » “A Economia Verde é imediatista”

Camila Nobrega, do Canal Ibase

José Eli da Veiga / Foto: Paulo Fridman

Durante mais de um século, multiplicaram-se teorias econômicas que não levavam em conta a natureza em cálculo algum. Atualmente, porém, só cresce o número de economistas que começam a olhar para a economia não como um sistema isolado, mas como parte de um todo, submetida às leis da natureza e aos impactos que causa nos homens. São os chamados economistas ecológicos, que propõem uma visão mais ampla do sistema. Entre as principais referências do tema no país está o economista e professor da Universidade de São Paulo (USP) José Eli da Veiga, autor de 21 livros, que assina a abertura do livro “O Decrescimento – entropia, ecologia, economia”, lançado mês passado pela editora Senac. É a primeira tradução em português da obra do matemático e economista romeno Georgescu-Roegen, cujo pensamento foi renegado por décadas entre os círculos da área e, agora, está sendo retomado. Nesta entrevista, José Eli fala não apenas da teoria de Georgescu, como do crescimento da Economia Ecológica em si, em oposição à Economia Verde.

Canal Ibase – Qual o significado da chegada da obra de Georgescu-Roegen ao Brasil?

José Eli da Veiga – Muitos jovens ainda hoje saem das faculdades de Economia do país sem ter lido a obra dele. Na década de 1970, Roegen publicou livros e artigos importantes que não foram reconhecidos pela academia. A incorporação da Lei da Entropia (2ª lei da termodinâmica, cuja essência é a degradação da energia em sistemas isolados) na economia, proposta pela primeira vez por ele, não foi bem aceita e Georgescu foi posto de lado. Nos últimos tempos, ele tem sido revisto, mas no Brasil só havia obras circulando em francês, o que dificultava o acesso de alunos. Consegui, finalmente, que este autor fosse publicado em português. Ele foi um gênio, precisa ser mais lido.

CI – Embora ele mesmo nunca tenha usado essa denominação, Roegen foi uma das principais inspirações para o movimento da Economia Ecológica. Como o pensador via a questão do limite da natureza para o crescimento da economia?

JEV – Não se trata exatamente de limites, como alguns economistas falam hoje. O foco dele era outro. Georgescu teve, ainda nos anos 1960, um estalo sobre a Lei da Entropia. Ele jogou luz sobre o fato de que os economistas lidavam com a produção econômica como algo independente, isolado. Os recursos naturais eram vistos como infinitos, e por isso não entravam na conta. Só que este romeno percebeu a relação de interdependência entre ambos. A Lei da Entropia não pode simplesmente ser descartada, porque ela age sobre a economia.

CI – Ou seja, ele percebeu que existe uma perda de energia associada aos processos econômicos, certo? E há energia dissipada que nunca se recupera…

JEV – Sim, o foco dele não é sobre o esgotamento de recursos. Ele é anterior à discussão sobre mudanças climáticas, que está em voga hoje. Georgescu se debruçou sobre o fato de que os recursos naturais têm uma energia que se dissipa, à medida que são usados pela economia. No início da carreira, ele tinha o foco de estudo voltado para o consumo. Depois, percebeu que precisava se dedicar à questão da produção. E concluiu que, uma vez utilizados para a produção de algo, os recursos terão uma parte de energia que nunca mais será utilizada. É uma parte que se perde no processo. Mas os cálculos de produção na economia não levam isso em conta. Tomemos como exemplo as energias fósseis. Para Georgescu, o limite do crescimento se daria ao passo que a utilização delas reduziria a quantidade de energia inicial do processo.

CI – Mas o pensamento dele ainda não chegou à esfera prática da economia. Em conferências internacionais sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, como a Rio+20, Conferência da ONU realizada ano passado, esta abordagem não passou nem perto das salas de conferência…

JEV – Eu não esperava mesmo que um encontro como a Rio+20 discutisse esse tipo de assunto. Ocorre que os prazos dessa discussão proposta por Georgescu talvez sejam séculos. Não sabemos quando vai acontecer, mas a perda gradual desses recursos naturais vai levar a um ponto máximo. Na Rio+20, discutem-se soluções mais imediatas. A transição de que se fala nessas salas de conferência é outra, que as Nações Unidas chamaram de Economia Verde. Já Georgescu foi um dos pais da Economia Ecológica, que defende uma outra transição, não apenas tecnológica. Ele acredita também que, em algum momento, haverá decrescimento. A economia, segundo ele, não poderá se manter apenas estável.

CI – E, dentro da Economia Verde, as propostas são de adequações mais simples. Não há uma grande mudança de paradigma econômico, certo?

JEV – É outro foco. Na discussão atual, existe uma crença de que vai haver descolamento entre crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, a medida de riqueza mais utilizada como parâmetro de comparação no mundo) e os impactos ambientais. A ideia é que o avanço tecnológico vai permitir a manutenção do crescimento econômico. Ou seja, a tese da Economia Verde é que, em determinado momento, o PIB poderá continuar aumentando e os impactos vão diminuindo. Para isso, economistas desta corrente apresentam dados sobre queda de emissões de carbono por unidade de produção. Na prática, significa que para cada unidade produzida, a quantidade de carbono usada diminuiu. Mas isso só serve em termos relativos. Quando pegamos o conjunto total, como a produção aumenta, a quantidade absoluta também cresce.
O impacto na atmosfera, portanto, continua aumentando e muito. O único argumento novo que deve ser analisado ainda é em relação à Inglaterra. Estudos recentes mostram que o país está conseguindo manter o PIB em crescimento, reduzindo as emissões.

CI – Mas, nesse caso, estamos falando de um país com um desenvolvimento mais avançado, e com condições de apostar em inovações tecnológicas. No entanto, se as nações mais pobres dependerem de tecnologias que não podem bancar, sem que haja transferência, como elas farão?

JEV – Aí está o problema. Será que a humanidade resolverá os novos desafios tratando o problema com as mesmas receitas antigas. Nesse caso, não se atacam os sintomas. A Inglaterra é um caso de economia madura, e parece que o mesmo processo pode estar acontecendo também na Holanda. Mas o cenário encontrado lá não é o mesmo de países pobres. Será possível apostar nesse modelo, e que todos os países alcançariam uma maturidade que os permitiria crescer, reduzindo, por meios tecnológicos, os impactos ambientais?

CI – Ainda assim, este pensamento não leva em conta os impactos sociais associados ao crescimento econômico desenfreado. Estas questões fazem parte da Economia Ecológica?

JEV – Sim, a economia não pode ser vista como um sistema isolado nem das questões ambientais, nem sociais. Estamos falando sempre de uma mesma coisa. No caso da Inglaterra, por exemplo, estamos falando de uma economia madura em vários sentidos. É uma sociedade cujo acesso a serviços é outro, onde há um parâmetros de educação, saúde mais elevados e compartilhados pela população. Não é a economia em si, isoladamente, que levará nações a reduzirem impactos socioeconômicos significativos.

(Canal Ibase)

Publicado por: Érico Pagotto | abril 17, 2013

Reciclagem não impede destruição ambiental

Valéria Dias, da Agência USP

A reciclagem de garrafas PET, vidros, alumínio e papel ajuda a retardar a degradação ambiental, porém, não resolve o principal problema ambiental vivenciado atualmente pelo Planeta: o consumo desenfreado de recursos naturais. “A reciclagem não salvará o Planeta. Ela é apenas um paliativo que retarda a degradação ambiental”, alerta o pesquisador Hélio Francisco Corrêa Lino. Em seu doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o pesquisador fez um mapeamento extenso das cadeias produtivas de latas de alumínio, papel, garrafas de polipolietileno-tereftalato (PET) e vidro, a partir da indústria primária (desde a extração dos recursos naturais necessários para a fabricação, chegando ao produto final) até a indústria secundária (as responsáveis pela reciclagem), passando pelas associações de catadores de material reciclável. “Quero deixar claro que sou favorável às atividades de reciclagem. Mas sou totalmente contra o senso comum de que apenas a reciclagem, por si só, impedirá a destruição do meio ambiente. No máximo, retardará essa destruição”, ressalta o pesquisador, que é professor universitário na área de administração e economia.

A extensão da análise realizada para o doutorado incluiu todo o processo produtivo, as plantas industriais, os insumos, e os produtores envolvidos na indústria primária, além das relações econômicas entre os setores primário e secundário dos quatro setores estudados. “Existe um grande poder econômico por trás dessas atividades”, comenta. No caso das garrafas PET, a análise do setor primário incluiu as refinarias de petróleo, postos de extração e petroquímicas. “O petróleo é importante para esta indústria porque as fibras sintéticas utilizadas em sua produção são produzidas a partir da transformação de derivados da nafta petroquímica”, explica. Em relação ao vidro, a pesquisa listou todas as empresas produtoras do material no Brasil. O mesmo foi feito em relação ao papel e às latas de alumínio.

Lino constatou que nas quatro cadeias produtivas, a produção secundária é sempre subordinada à primária. “No caso das latas de alumínio, que tem alto valor agregado, o preço no setor secundário depende daquele praticado no setor primário. A indústria secundária não vai sucatear a primária. E a extração de bauxita para produzir latinhas de alumínio vai continuar”, explica. “Quanto às garrafas PET, as maiores recicladoras são as grandes consumidoras deste tipo de embalagem. Podemos observar um lucro indireto”, diz, lembrando que o controle dessas indústrias é concentrado nos quatro setores, ou seja, é feito por poucas empresas, sendo muitas de capital estrangeiro. Já a maior parte da indústria de papel utiliza madeira de reflorestamento de pinus e eucalipto. “São árvores tradicionalmente conhecidas como grandes bebedoras de água. Podem drenar o lençol freático e prejudicam a flora e fauna dos locais reflorestados”, diz. Outro ponto desta indústria é que a reciclagem faz o papel perder a qualidade, além do problema da fácil contaminação do produto.

A indústria de vidro utiliza os próprios cacos como insumo de produção, além de os cacos protegerem os fornos durante a queima, o que leva a produção de um vidro de melhor qualidade. “A indústria tem muito interesse em reciclar, mas o grande problema é a coleta, a causa do vidro ser pesado e poder machucar”, aponta Corrêa Lino.

De acordo com Corrêa Lino, a sociedade não leva em conta um ponto fundamental desta discussão. “O Planeta não suporta 7 bilhões de habitantes. Em uma sociedade de consumo de massa, como a que vivemos, o crescimento populacional gera demanda por consumo. Consequentemente, isso leva a um aumento da extração de recursos naturais usados para a manufatura produtos”. Ele lembra que cerca de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente abaixo da miséria absoluta em todo o mundo e que impacto do crescimento econômico dos países é muito alto para o consumo mundial. “É muito fácil falar sobre proteção ao meio ambiente. Difícil mesmo é abrir mão do conforto, reduzir o consumo, evitar o desperdício”, critica o pesquisador. Para ele, iniciativas pessoais neste sentido são bem-vindas. “A sociedade de consumo de massa acaba criando necessidades que nem sempre são, de fato, necessárias.”

O trabalho tomou como base material coletado em sites oficiais das indústrias, tanto do primário como secundário, além de algumas visitas a determinados setores. As quatro vertentes foram escolhidas por serem as principais no Brasil. A pesquisa “A indústria de reciclagem e a questão ambiental”, foi apresentada sob a orientação da professora Suely Robles Reis de Queiroz.

(Agência USP)

Publicado por: Érico Pagotto | abril 1, 2013

Catástrofes naturais e humanas custaram US$ 186 bilhões em 2012

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Qual foi o custo financeiro das catástrofes naturais e humanas ocorridas em 2012? Segundo estudo da companhia de seguros suíça Swiss Re, publicado na última quarta-feira (27/3), o valor chegou a US$ 186 bilhões (cerca de R$ 390 bilhões). As perdas seguradas chegaram a US$ 77 bilhões, fazendo deste ano o terceiro mais caro na história dos seguros, informou o grupo suíço em um comunicado. O total é, no entanto, inferior ao de 2011, marcado por um número recorde de terremotos e também pelo tsunami que atingiu a costa do Japão. Em 2011, as perdas seguradas foram de US$ 126 bilhões, explica o estudo da Swiss Re.
Em 2012, ocorreram importantes catástrofes naturais, sobretudo nos Estados Unidos, onde foram registrados nove dos dez incidentes mais caros do ano. A fatura total no país foi de US$ 65 bilhões em perdas seguradas. O furacão Sandy foi a catástrofe mais cara, tanto em termos econômicos (US$ 70 bilhões, mais que o furacão Katrina de 2005) como em custo para as seguradoras (US$ 35 bilhões). A Itália também viveu em 2012 vários terremotos que provocaram mais de US$ 1,6 bilhão de perdas seguradas, o nível mais alto registrado até agora no país.
Publicado por: Érico Pagotto | março 27, 2013

Afinal, empresa sustentável dá lucro?

Interessante esta matéria.

Mas fica a questão: se dá lucro para as grandes multinacionais, estará melhorando a qualidade de vida das pessoas, ou apenas azeitando as engrenagens do modelo de produção atual?

Afinal, empresa sustentável dá lucro?.

Publicado por: Érico Pagotto | janeiro 17, 2013

É tempo de fechar a porta do inferno

“Se houvesse no mundo meia dúzia de líderes de verdade, a emergência ambiental que se está dando em cidades chinesas faria soar todos os alarmes: o mundo todo está vivendo uma situação de mudança climática que anuncia uma catástrofe em algum momento futuro.

Sei que esse tipo de alerta costuma cair no vazio quando feito por entidades ambientalistas, desprezadas como ecochatas. Mas, agora, as sirenes estão sendo acionadas pelo empresariado. O mais recente deles está no relatório ‘O Mundo em 2050′ que uma portentosa consultoria, a PwC (PricewaterhouseCoopers), acaba de divulgar.

Pois bem, a PwC diz que, mantidas as coisas como estão, suas previsões para o crescimento da economia levariam a aumento de temperatura de 6 graus ou mais no longo prazo, três vezes além do aumento que abriria as portas do inferno”.

Artigo de Clóvis Rossi – FSP, 17/1, Mundo, p.A20.

Publicado por: Érico Pagotto | outubro 26, 2012

Prosperar sem crescer: é possível?

Fonte: Marcus Eduardo de Oliveira*

É possível fazer uma economia prosperar sem que haja crescimento, sem que haja mais produção de bens e serviços? É factível ter uma vida melhor com equilíbrio e justiça social sem passar pelo aumento do estoque de produtos disponíveis no mercado?

Se entendermos que a economia é limitada pelos recursos naturais e pelos ecossistemas fica fácil aceitar que há então explicitamente limites para o crescimento, uma vez que a Terra não é capaz de sustentar elevadas produções físicas além das consideradas normais e, crescer, nesse caso, seria antieconômico e contraproducente.

Contudo, se concordarmos com a prédica dos economistas convencionais de que os recursos naturais são meras ocorrências de externalidades, que todo e qualquer impacto na natureza em decorrência da atividade produtiva expansiva é uma questão tão somente de ordem periférica e que a inovação tecnológica, um belo dia qualquer, suprirá a atual limitação natural, então, crescer, nesse caso, é a única receita viável para se alcançar elevados padrões de bem-estar e de melhoria acentuada das condições de vida.

Diante disso, o debate está posto à mesa. De um lado, os economistas ecológicos pontuam continuamente que o planeta não tem capacidade de sustentar a vida nesse ritmo avssalador de consumo, pois as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o esgotamento dos recursos naturais e o desaparecimento de ecossistemas estão indo à exaustão. Quem está desse lado do debate se posiciona de forma contrária ao crescimento sem limites, uma vez que isso seria potencialmente emissor de gases capazes de aquecer ainda mais o planeta, fruto do desrespeito aos limites biofísicos do meio ambiente.

Do outro lado do debate, há quem defenda que chegaremos em breve a praticar com eficiência o uso dos recursos, preservando – e não destruindo -, a riqueza natural. Quem está desse lado diz que é justamente o crescimento, vindo da inovação e de tecnologias avançadas que fará a prosperidade aumentar e que ultrapassando as fronteiras ecossistêmicas nada acontecerá de mais grave ao conjunto da vida social.

Esse debate se acirra a partir do seguinte ponto: crescimento não significa (e nunca significou) desenvolvimento. Crescimento é a expansão das bases físicas da economia (fazer mais), o que significa aumentar a pressão sobre os recursos naturais, ao passo que desenvolvimento é assegurar melhorias nas condições de vida – viver melhor. O primeiro conceito – como é natural supor – se prende ao lado quantitativo (mais); já o segundo se refere ao aspecto qualitativo (melhor).

Estudos recentes indicam que a economia global tem hoje cinco vezes o tamanho de meio século atrás. Continuando com esse ritmo de produção, no ano de 2100 terá 80 vezes esse tamanho. Pior: esse exagerado crescimento econômico atingido até agora distribuiu pessimamente os recursos. Atualmente, um quinto da população mundial recebe meros 2% da renda global.

Assim, a ideia de prosperar não encontra fundamento no princípio do crescimento. Corroborando com isso, ao menos dois renomados especialistas tem recomendado modelos econômicos e estilos de vida que priorizam o lado qualitativo.

Peter Victor, o primeiro deles, é o autor de Managing Without Growth . Ao estudar o modelo de desenvolvimento para o Canadá no decorrer dos próximos 30 anos, Victor assegura que é possível prosperar sem crescer. De que forma? Criando um modelo econômico que seja capaz de equilibrar a capacidade produtiva da economia com o nível de gastos para que haja pleno emprego, sem necessariamente manter a economia expandindo ao longo do tempo. O que o modelo faz é empregar os benefícios de um aumento de produtividade na forma de mais lazer – vida melhor. Nas palavras de Victor: “Assim, podemos nos tornar mais produtivos sem ter de produzir mais, apenas trabalhar menos. Desde que haja distribuição, é possível ter muito menos desigualdade, sem crescimento”.

Outro renomado especialista no assunto é Tim Jackson, autor de Prosperity without Growth – Economics for a Finite Planet para quem “os dias de gastar dinheiro que não temos em coisas das quais não precisamos para impressionar as pessoas com as quais não nos importamos chegaram ao fim”. Jackson afirma que o mais importante é procurar viver bem, e não viver com mais. Nas palavras de Jackson: “Viver bem está ligado à nutrição, a moradias decentes, ao acesso a serviços de boa qualidade, a comunidades estáveis, a empregos satisfatórios. A prosperidade, em qualquer sentido da palavra, transcende as preocupações materiais. Ela reside em nosso amor por nossas famílias, ao apoio de nossos amigos e à força de nossas comunidades, à nossa capacidade de participar totalmente na vida da sociedade, em uma sensação de sentido e razão para nossas vidas”.

Como vimos, o debate está lançado. Acima de tudo, que a vida e o planeta sejam respeitados. Assim, todos nós agradeceremos.

* Marcus Eduardo de OliveiraEconomista é professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba

Publicado por: Érico Pagotto | outubro 26, 2012

Como o consumo colaborativo pode revolucionar uma cidade

Fonte: Cidades para Pessoas

É bem provável que você tenha uma furadeira em casa. O que talvez não saiba é que o uso médio de uma furadeira, em toda a sua vida útil, é de aproximadamente 40 minutos. Aí vem a pergunta: você precisa da furadeira ou do furo? Muitas vezes não é preciso possuir um bem para usufruir dos benefícios que ele pode te trazer – e esse é o princípio do Consumo Colaborativo. Para entender melhor como esse modelo de consumo funcionava, a administradora Camila Haddad estudou o assunto no Devellopment Planning Unit da University College of London. Veja a entrevista que ela nos concedeu em Londres e entenda como o Consumo Colaborativo pode impactar na relação entre as pessoas e suas cidades.

Cidades para Pessoas – O que é consumo colaborativo?

Camila Haddad – Esse é o nome que foi dado às formas de consumir baseadas no uso e não na posse dos bens. São formas tradicionais, na verdade: empréstimo, troca, aluguel, etc. Essas relações de consumo estão sendo reinventadas com as novas tecnologias de comunicação. Hoje é possível pesquisar na rede se alguém que more por perto tem um cortador de grama para emprestar, por exemplo. O Consumo Colaborativo parte do princípio de que todo mundo tem alguma coisa em desuso. Tempo, espaço, dinheiro, produtos, etc. E todas essas coisas possuem valor. Um exemplo básico é o carro. O uso médio de carros em São Paulo é de 3 horas por dia. Ou seja, é um bem ocioso diariamente durante 21 horas. Sem contar o fato de que, em geral, só uma pessoa usa um espaço onde caberiam cinco. O que o consumo colaborativo faz é criar um espaço para as pessoas se encontrarem para fazer um melhor uso desses ativos em geral. E a tecnologia está fazendo com que seja possível um encontro de “queros” e “tenhos”, o que era muito mais difícil antes das ferramentas da internet.

CPP – Sua tese foi sobre a confiança presente nesse processo?

CH – Isso mesmo. Hoje vemos nas cidades que as pessoas estão cada vez mais desconectadas do senso de comunidade, já que os encontros nos espaços públicos estão ficando raros. Então, a internet acaba sendo uma ferramenta importante para o Consumo Colaborativo. Mas como as interações acontecem entre estranhos, é preciso que haja confiança. Se eu entro em um site de caronas e me cadastro para levar alguém que faz o mesmo caminho que eu todos os dias, eu preciso confiar nessa pessoa. Em minha tese eu procurei estudar como essa confiança pode é criada.

CPP – E o que você descobriu?

CH – Que algumas ideias da economia clássica estão equivocadas. Segundo a teoria econômica, os humanos são seres “racionais” incapazes de ações colaborativas que não visem o benefício próprio. Então, teoricamente, a gente vê o homem como um ser movido a lucro, mas na prática não é sempre assim que acontece. A pesquisa que eu fiz foi com pessoas que já estavam envolvidas de alguma forma com Consumo Colaborativo. Havia quem fosse movido por interesses econômicos, mas muitos procuram compartilhar seus bens movidos por valores ideológicos.

CPP – E isso aumenta a confiança?

CH – Em geral, tudo o que a gente faz é baseado em uma experiência passada. Então, os mecanismos criados para gerar confiança são muito baseados em alguma forma de reputação. O interessante é que na lógica do Consumo Colaborativo, a sua reputação é mais importante do que o seu crédito bancário.

CPP – E como isso influencia na relação das pessoas com a cidade?

CH – É interessante ver como a tecnologia está sendo utilizada pelas pessoas para se reconectar com o local. Com ferramentas de localização, como um GPS, é possível descobrir o que as pessoas que estão ao seu redor têm a te oferecer. Daí você descobre que teu vizinho possui um aspirador de pó para emprestar e acaba por conhecê-lo. Essas conexões podem fortalecer a esfera local, do bairro, e criar relações mais interessantes de engajamento cívico no futuro. Além disso, há vários grupos utilizando espaços públicos para plantar em jardins comunitários, ou com como espaços de feiras de troca de livros, roupas, etc. Todos esses encontros têm sempre uma desculpa de consumo, mas só funcionam quando há uma coesão social, quando as pessoas, trocam ideias, se conhecem e têm um espaço para conviver. Ou seja: o on line está ajudando as pessoas a se conectarem no mundo real.

CPP – Que exemplos de Consumo Colaborativo você pode citar em Londres?

CH – O mais recente é o do bike sharing, com a Barclays [sistema de bicicletas públicas que podem ser alugadas por tempo de uso na cidade]. Tem muito jardim comunitário também, como o Calthorpe Project, onde as pessoas do bairro se encontram para plantar. Esse é um projeto muito livre, cada um se dedica o quanto pode ao cultivo das plantas. E há um controle social interessante: as pessoas só colhem alguma coisa da horta se tiverem plantado. Tem também a “prateleira livre” do Store Street Espresso, onde você pode deixar um livro para retirar outro. O café não faz nenhum tipo de controle, o sistema nesse caso também se regula sozinho: dificilmente alguém pega um livro se não tiver deixado outro. E é muito interessante porque você começa a se perguntar se precisa mesmo possuir todos os livros que já leu. Isso sem contar os encontros fortuitos que acontecem. Você pode pegar um livro que talvez não lesse em outra situação, porque sabe que se não gostar pode devolvê-lo e pegar outro.

Também gosto muito do People’s Supermarket, um mercado em que os compradores são sócios acionistas. Ele é propriedade de toda a comunidade, e cada dono se compromete a dedicar algumas horas de trabalho voluntário por mês. O People’s Supermarket procura vender apenas alimentos orgânicos de produtores locais eliminar ao máximo embalagens e produtos industrializados. Eles possuem um restaurante em que preparam os alimentos prestes a vencer e, se os produtos passam da validade, eles depositam na composteira no local. Em teoria, funciona como se fosse uma cooperativa, em que os donos também trabalham.

CPP – Você acha que a tendência do consumo colaborativo tem potencial de revolucionar as cidades?

Hoje, o Consumo Colaborativo é um movimento marginal e alternativo, mas tem potencial de revolucionar a forma como lidamos com os espaços públicos, com os bens que possuímos e com as pessoas que vivem próximas de nós. Em minha tese sobre a confiança eu percebi que quanto mais as pessoas se envolve nesse modelo de consumo, mais vão tendo abertura para se engajar em outras atividades. Por causa da internet, o Consumo Colaborativo tem o potencial de conquistar vários adeptos com rapidez. Vejo que isso pode, sim, revolucionar nossas cidades e nosso modelo de consumo.

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